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Educação em sexualidade: perguntas que geram mais perguntas

Na edição 20 da Revista Anchieta em Casa saiu o artigo que reproduzimos abaixo:

Photo by Evan Dennis on Unsplash

Outro dia recebi de uma amiga, que tem um filho de 10 anos, o pedido de um filme que falasse sobre sexo, pois ele estava fazendo muitas perguntas. Resolvi entender um pouco mais: quais são as perguntas que seu filho faz?

Pergunta sobre como é transar; se é gostoso; se coloca o “peru” na parte da frente ou de trás; quantas vezes eu já transei; como que uma menina sabe que ele quer transar com ela; me falou que quando ele era pequenininho ele falava com os coleguinhas que estava com “peru” de pedra e que não sabia o que era aquilo.”

Eu simplesmente adorei as perguntas dele e acho que elas dão pano para muita manga.
Quando ele pergunta se transar é gostoso já revela que tem conhecimento do que é a relação sexual e que as pessoas não fazem só para ter filhos. O interesse dele está no prazer do sexo. Interessante pensar que esse prazer é super pessoal e depende de várias coisas. Como responder a essa pergunta? Sexo pode ser gostoso, mas também pode ser dolorido. Pode ser cheio de amor, mas também cheio de violência. Teria uma resposta única? Qual o papel da educação em sexualidade diante dessas perguntas? O que uma resposta faz? Encerra uma discussão? A inicia?

Quando pergunta se coloca o “peru” na parte da frente ou de trás também está revelando que já tem algum tipo de informação sobre as várias formas de penetração que existem. Haveria um local “certo” para a penetração? Seria a penetração a única forma de relação sexual? E o sexo entre algumas mulheres que não usam nada para penetração? Até onde ir nessa discussão diante dessa pergunta? Se a proposta é fazer uma educação em sexualidade não heteronormativa é preciso ampliar as respostas, mas ao mesmo tempo, como não “exagerar a dose”?

Quando pergunta quantas vezes a mãe já transou abre toda uma porta para a discussão de intimidade, de estabelecimento de fronteiras e nos coloca para pensar em qual é o limite de exposição da própria vida sexual que é preciso para responder aos filhos e/ou alunos em uma situação educativa. Teria na pergunta sobre quantas vezes já algum julgamento ou só curiosidade? A quem interessa saber quantas vezes outra pessoa já transou? Em que contexto essa informação é relevante?

Quando pergunta como saber do interesse de uma menina, ele está perguntando sobre os afetos e sinais que fazem parte dos jogos amorosos e que não tem respostas desconectadas de contextos e de relações. São sutilezas relacionais de sedução e romance que a literatura, a poesia e o cinema nos ajudam a entender.  Por outro lado, nessa pergunta, abordar discussão sobre consentimento e a importância do desejo da outra pessoa para uma relação sexual seria bastante oportuno.

Quando ele fala do “peru de pedra” e do não saber o que era aquilo ele revela como a informação biológica e científica também é importante e necessária para amenizar angústias. Ao mesmo tempo em que ele tem perguntas sobre aspectos emocionais, algumas perguntas poderiam ser sanadas com um bom livro de ciências/biologia.

Isso é o que acho incrível da educação em sexualidade! As questões e as respostas variam enormemente.  É preciso sempre entender em qual enquadre elas se situam e oferecer espaço para ampliar a discussão.
De toda forma, o que me pareceu lindo nessa história é a relação dessa mãe com esse filho. É incrível a liberdade para fazer perguntas que esse menino dispõe. Isso já diz muito sobre confiança e vínculo. A base para uma boa educação em sexualidade já está ali: afeto, confiança, vontade, verdade.

Fortalecer os espaços acolhedores para que todas e todos tenham oportunidades de reflexão sobre suas dúvidas sobre sexualidade é uma urgência no mundo contemporâneo. As informações estão por todo lado, mas nem sempre são devidamente absorvidas e discutidas. Em alguns casos, essa conversa vai ser na família. Em outros, a mediação será por educadoras e educadores. O importante é assegurar que as perguntas sejam feitas! Só conhecendo as perguntas podemos ampliar o debate.